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O duo de Helena Ranaldi e Leonardo Medeiros

Toda forma de amor, por Marguerite Duras 

Em 'A música segunda', atores dão vida à obra da autora francesa

Luiz Felipe Reis

Toda forma de amor, por Marguerite Duras

Uma inquietante questão está presente em A música segunda, que contrapõe o amor passional ao relacionamento sereno e maduro: é possível amar menos, ou controlar os impulsos da paixão? Encenada pela primeira vez em 1995, um ano antes da morte da autora francesa Marguerite Duras (1914-1996), a peça estabelece em cena o tetê-à-tetê entre um casal, interpretado por Leonardo Medeiros e Helena Ranaldi, que se reencontra depois de três anos de separação. A montagem chega ao teatro Maison de France neste fim de semana após quase 10 anos de negociações entre os detentores dos direitos da obra da escritora e a produtora teatral Lulu Librandi.

– Marguerite tem uma visão muito madura sobre os relacionamentos. E trabalha justamente em cima da oposição entre o amor juvenil, exagerado, e o maduro, compreensivo – compara Leonardo Medeiros. – Mas suas ideias não estão fechadas. A intenção é provocar uma reflexão, fazer o público pensar junto. Acho que é possível amar de outra forma, não amar menos.

A história do casal que viveu uma paixão fulminante, perigosa, destrutiva e doentia serve à característica marcante da obra da escritora: a imunidade à indiferença. No explosivo encontro entre os dois, após a assinatura do divórcio, num hall de hotel na França, eles tentam conversar, ou até se tocar, mas sem machucar um ao outro. Até que emoções não sublimadas vêm à tona.

– Ela trata da dificuldade na separação, sobre como sobreviver depois do rompimento de um casal – antecipa Medeiros. – Por coincidência, eles se hospedam no mesmo hotel. Se encontram e começam a ter um diálogo casual. Mas, aos poucos, as feridas começam a se tornar evidentes, as mágoas e decepções afloram.

Representante do nouveau roman e do existencialismo, Marguerite Duras assina um texto em que antecipa, ainda nos anos 60, a angústia do homem moderno diante da dificuldade em emprestar e inserir afeto ao ato de se comunicar.

– Era uma francesa feminista que nos apresentou um homem totalmente despreparado afetivamente. É um cara possessivo e que se vê atormentado ao perder justamente seu objeto de posse – analisa.

No palco, fica claro, já nas primeiras cenas, que o rompimento do casal não é causado por falta de amor, ao contrário, por um sentimento que extravasa os limites da sanidade:

– Os dois estão muito abalados com o fim, a separação não anula o sentimento. Eles tentam não se expor um ao outro. O quanto cada um está abalado se revela através das questões mal resolvidas que se desenlaçam e moldam a peça.

Uma tela divide o espaço e insere, atrás dos atores, uma dupla de bailarinos. No decorrer do diálogo, se movimentam para expressar as emoções reprimidas pelo casal.

– Ora eles são o reflexo dos personagens, ora revelam o que de fato eles sentem e tentam esconder – conta Helena Ranaldi. – Eles percebem que vão continuar se amando pela vida inteira, mas que é impossível estar juntos novamente. Não fazem bem um ao outro. É essa experiência que os leva a entender que é possível, sim, transformar a maneira de amar outras pessoas.

Sentimentos de um artesanato literário

Romancista, novelista, roteirista e diretora de cinema – entre suas mais expressivas obras estão O amante (1984) e Hiroshima mon amour (1959) – Duras empresta ao texto seu fascínio e precisão pela manufatura de detalhes relativos a gestos, olhares, intenções e figurinos. É a riqueza de seu texto que encantou Leonardo Medeiros.

– Sempre fui muito ligado à literatura dramática americana e inglesa, mas achava a francesa verborrágica e exagerada demais. Fiquei muito surpreso com Marguerite Duras. Sua escrita é econômica, tem qualidade literária, é de altíssimo nível. Não apenas nos diálogos, mas na carpintaria, na estruturação da montagem.

Helena Ranaldi foi apresentada ao texto que serve ao espetáculo após uma ligação telefônica do diretor José Possi Neto. Já gostava de suas contribuições ao cinema e seus romances. Aceitou no ato, ao ler a história.

– Liguei para o Possi no mesmo dia, não houve um mínimo de hesitação. Fiquei emocionada. É um texto que trata de assuntos que me interessam profundamente. Ela escreve sobre as relações humanas, amor, paixão, desejo, separação e dor, coisas que me tocam. Sentimentos que estão presentes o tempo todo nas nossas vidas.

A atriz ressalta a atemporalidade e a universalidade do trabalho da escritora:

– É uma peça contemporânea, mas que pode ser montada em qualquer época. Ela usa como recurso o subtexto, o que é essencial para o trabalho do ator. Faz indicações em rubricas que te fazem imaginar a atmosfera de cada cena.

Maison de France – Av. Presidente Antônio Carlos, 58, Centro (2544-2533). Cap.: 352 pessoas. 5ª, 6ª e sáb., às 20h; e dom., às 19h. R$ 30 (5ª e 6ª) e R$ 60 (sáb. e dom.) Estudantes e idosos pagam meia. Duração: 80 min. 14 anos. Até 27 de setembro.

18/08/2009 12:03

Comentários (4)

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