Em 'Discurso dos animais', Ana Kfouri domina os caudalosos textos com segurança interpretativa
Macksen Luiz
As duas partes do Discurso dos animais – O animal do tempo e A inquietude – que estão em cartaz em horários alternados no Espaço Sesc, são a oportunidade de entrar em contato com o autor francês Valerie Novarina, um dos nomes mais destacados da dramaturgia europeia, que propõe, através da recriação da linguagem, o deslocamento do fato dramático. A tradição da palavra, tão cultuada pela cultura francesa, é levada ao palco por Novarina, redimensionada pelo rompimento de seus significados.
Não há exatamente uma narrativa como concepção evolutiva, mas malabarismo verbal, em que vocábulos são descritos na cadência dos sentidos que se lhes atribui. A teatralidade está na busca do que a palavra pode gerar como encenação, jogo, quase lúdico, de perseguir conotações em meio a neologismos que adotam conteúdos projetados em sentimentos, impressões e lembranças. Novarina desafia o espectador a encontrar a própria expressão daquilo que é dito, imiscuir-se por entre o derramamento verbal e a cascata de imagens, mais como fluxo do que propriamente como encadeamento. Constrói-se sequência de palavras que adquire, na fluência, sonoridade dramática.
Neste jogo de linguagem, tudo precisa ser designado como numa partida em que as regras são estabelecidas na contracena ator-plateia. O som volátil cria realidade cênica com quebra-cabeças silábicos, conjugações vocabulares e desconstruções vocais, desfocando o conceito da palavra para descobrir-lhes interioridades.
Novarina propõe, no início de A inquietude, que se ouçam as palavras, para concluir sobre a dificuldade de “tirar vida das palavras”. Entre essas duas proposições, ambos os textos sugerem que se navegue na imponderabilidade do que tantas vozes podem desencadear. Se em O animal do tempo a atriz circula por túmulos, na verdade, folhas soltas, nos quais se leem epitáfios, em A inquietude volteia-se por esferas que iluminam trilhas múltiplas. Antônio Guedes dirige O animal do tempo e Thierry Trémouroux, A inquietude, tendo a atriz Ana Kfouri como intérprete em ambas. Dominando os caudalosos textos com segurança interpretativa, Ana embala a música verbal com variantes de tonalidades entre a poética do gesto e a vocalização de intencionalidades.
A atriz demonstra neste tour de force interpretação límpida e adesão plena ao universo novariano. A destacar ainda a excelente tradução de Angela Leite Lopes, que transpôs para o nosso idioma em versão escorreita, sonante, criativa, que se reinventa vernacularmente, numa evidência da compreensão extensiva do original.
O animal do tempo e A inquietude não deixam de ser um desafio à coparticipação da plateia nas encenações.
O público deve somente se deixar levar pelas possibilidades de fruição que os textos oferecem, e se dispor a usufruí-los a partir de seu próprio código de escrita.
24/07/2009 14:32
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