Aderbal Freire Filho dá frescor e empresta dramaticidade à célebre obra cunhada por Herman Melville
Luiz Felipe Reis e Stehphani Dantas

Após a estreia do espetáculo O continente negro, de Marco de La Parra, na última semana, Aderbal Freire-Filho se lança num segundo desafio teatral em curto espaço de tempo: a montagem do espetáculo inédito Moby Dick. Versão teatral para a caudalosa obra literária cunhada por Herman Melville, a peça navega e divaga sobre a famosa obsessão do capitão de um baleeiro pelo cachalote que lhe arrancara uma das pernas. Estreia neste fim de semana, no Teatro Poeira.
Para atracar a colossal história da baleia nos palcos, Aderbal dá novos ares ao formato romance-em-cena, molde que o consagrou em montagens como A mulher carioca aos 22 anos, de João de Minas (1991), O que diz Molero (2003), de Dinis Machado, e O púcaro búlgaro (2006), de Campos de Carvalho, em que a encenação respeitava a narrativa, com pouquíssimos cortes. Mas, com uma obra generosa em número de páginas (600) e capítulos (35), não haveria outro jeito senão a missão de dar dramaticidade à estrutura narrativa do escrito.
– O livro permaneceu com uma grandeza maior que as muitas adaptações já feitas. Tenho em mãos mais uma oportunidade para estender o campo do possível na dramaturgia. O tempo no romance é muito mais apreendido. Já no teatro é preciso condensar, ainda mais um texto como esse. Como diretor, gosto de me apropriar desse universo amplo dos romances, explorar o que está escrito.
O primeiro traço visível da adaptação é a ausência do narrador, cuja primeira frase, “Call me Ishmael”, é reconhecida como um dos mais célebres inícios de romance da história. Assumem o posto de conduzir o barco, Chico Diaz (Capitão Ahab), Isio Ghelman (Starbuck), Orã Figueiredo (Stubb) e André Mattos (Flask), que se revezam na narrativa, além de viverem seus papéis principais e ainda outros personagens da obra.
– Uma obra de tal envergadura não é apenas uma aventura. São questões metafísicas e filosóficas que marcam o corte do Aderbal para a história – analisa Diaz. – Ele investiga que mal é esse que corrói toda a sociedade. Essa necessidade de imputarmos culpa em coisas que estão distantes de nós. Ele nos aproxima dessa baleia branca que está dentro do homem contemporâneo. Vivo Ahab, esse ser demoníaco que nos leva numa trajetória de redenção e busca.
Esta é a terceira vez que Diaz e Aderbal Freire-filho trabalham juntos.
– Apresentei um projeto de monólogo e ele retornou com esse convite – lembra o ator. – Seis meses imersos com uma trupe dessas é uma raríssima oportunidade. Ontem mesmo ele apresentou textos novos. É um questionamento incessante.
Para abrigar uma baleia e o oceano que a envolve, o Poeira adota a configuração de arena, formando uma ilha no meio do teatro. Seja o convés do baleeiro Pequod, o mar onde os botes se lançam à caça das baleias, ou mesmo a sala onde cientistas se reúnem para discutir a classificação dos diversos tipos de cetáceos, o palco se desdobra em múltiplos cenários reforçados por objetos como baús, livros, arpões e cordas.
– Foi uma série de coincidências que me levaram novamente ao Poeira – conta o diretor. – Apesar de há duas semanas ainda estar com o espetáculo inacabado, foi prazeroso trabalhar nessa montagem. Moby Dick foi pensado e medido em cada detalhe. Começamos a ensaiar no fim do ano passado. Não tinha uma adaptação pronta. Trabalhamos a estrutura dramatúrgica durante os ensaios, sempre em conjunto com os atores.
Tato Taborda reencontra o diretor e laboratoriza sons
Durante a montagem do espetáculo que tem duração de duas horas, Aderbal Freire-Filho não fez apenas uma dramaturgia cênica. Na adaptação do romance, reescreveu cenas e até criou canções, com o apoio do compositor e multiinstrumentista Tato Taborda, que assina a trilha. Os dois, que trabalham juntos desde Turandot, de 1993, já montaram 15 peças:
– Aderbal escreve muito bem! Para Moby Dick, ele não adaptou simplesmente, partiu do livro para criar novas cenas e personagens. Com suas letras nas músicas, conseguimos alcançar uma dimensão na qual o verbo falado não chega.
Uma parceria de anos como a dos diretores faz a diferença em um grande projeto como esse. Tato diz que muitas vezes a elaboração da trilha se baseia em palavras soltas nas reuniões iniciais, que acabam se tornando sementes em sua imaginação.
Ao longo do projeto, Tato acompanhou ensaios e, junto com Aderbal, foi elaborando o conceito principal, que é a ideia de que Moby Dick não é um monstro exterior, mas a representação dos demônios internos das pessoas.
– Parti de sons de baleias, mas lidei com esses cantos como se fossem humanos. A curva melódica e o contexto em que são apresentados dá a esses gritos características de vozes humanas.
Além de Moby Dick, estreia hoje outra peça cuja trilha é assinada por Tato Taborda, Por um fio, de Moacir Chaves, baseada no livro de Dráuzio Varella. O diretor é também antigo parceiro de Tato, que considera sua maneira de trabalhar parecida com a de Aderbal:
– Eles têm uma afinidade intelectual muito grande. Ambos respeitam muito o texto e o trabalho dos atores. Além de optarem sempre pela humanização dos personagens, como feito em Moby Dick.
24/07/2009 13:23
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