Continente Negro
Macksen Luiz
O espaço é menos geográfico do que afetivo. Chilenos, com sua solidão marcada pela campainha de telefones, transferem a sua falta de lugar para um continente que imaginam alternativo, porque inconcluso, para preencher o vazio existencial. Nesta caminhada até a escapada para o lado de lá do mundo, os personagens de O continente negro, de Marco Antonio de la Parra, em cartaz no Teatro Nelson Rodrigues, no Centro, entrechocam-se consigo mesmos, incapazes de escapar da autocondenação ao silêncio da incomunicabilidade. Irmãs que se afastam pela traição.
Atriz que vagueia pela incapacidade de estabelecer laços. Sentimentos que morrem quando ainda estão se cultivando. Todos convergindo para o afastamento, um ponto de fuga que os leva para o mesmo lugar que já estão.
Tramas fragmentadas
Neste texto do autor chileno há pequenas histórias, realisticamente banais e quase previsíveis, em que palavras entrecortadas e presenças fragmentadas formam a narrativa. Em flagrantes de imagens e vozes vai se armando o painel de relacionamentos, no qual a sequenciação é substituída pelo fracionamento, e os sinais das peças deste jogo de sentimentos apontam mais para relativa habilidade construtiva do que para tratamento original de clichês emocionais.
É, exatamente, essa manipulação formal que torna O continente negro, senão um texto instigante e provocativo, pelo menos reveste a convenção de envólucro atraente. A quebra da linearidade, o efeito mais interessante desta dramaturgia, se transporta ao uso de outros elementos, como a ação descritiva, intermediada por microfone, e a distribuição dos personagens pelo trio de atores, que constrói as mudanças pela circularidade.
Este arcabouço textual é transposto para a cena por Aderbal Freire-Filho como partitura bem harmonizada. A teia, que o autor trama, se traduz em quadros ágeis, ainda que não roube espaço a silêncios e pausas, explorando seus liames com o cuidado de não esticar demais os seus fios. Como as tramas se sustentam na evidência de sua exposição, o diretor explora os subterrâneos para acondicionar a superfície, talvez com menor atmosfera melancólica, mas certamente evitando o perigo do melodramático.
O cenário de André Cortez esboça ambientes, com muitas entradas e saídas, em matizes cinzentos. Os figurinos, também assinados por Cortez, reforçam o realismo na contramão de seu cenário. A iluminação de Telma Fernandes obedece a desenho correto. Débora Falabella tem atuação mais destacada como a estudante apaixonada pelo professor, ainda que sua alteração de voz, ao infantilizá-la, soe artificial. Yara de Novaes imprime a Natália a indefinição com que a personagem alimenta o seu vazio. Ângelo Antônio sobressai pela voracidade verbal de Cláudio na sua compulsão por amores circunstanciais.
20/07/2009 21:53
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