O casal de atores leva o tabu para os palcos
Rachel Almeida

Luiz Fernando Guimarães chega à bela cobertura de Fernanda Torres, na Lagoa, superanimado. Conta que passou o fim de semana fuçando opiniões sobre a peça Deus é química, estrelada pela dupla, no Google.
– É bom esse negócio de blog porque hoje em dia você não conta apenas com a opinião da crítica – defende o ator. – O público também dá muitos pitacos. Uma mulher, por exemplo, escreveu que ficou surpresa porque esperava encontrar Rui e Vani no palco. Não foi o que aconteceu, mas acabou se divertindo demais.
Vai ter mais gente com a mesma expectativa da espectadora que assistiu à pré-estreia do espetáculo, na semana passada: por coincidência, no dia 28 deste mês, o casal volta a encarnar seus famosos personagens televisivos no filme Os normais 2 – A noite mais maluca de todas, sequência de Os normais – o filme, de 2003, com direção de José Alvarenga Jr.
Dirigida por Hamilton Vaz Pereira, a peça, que estreou oficialmente para o público nesta quinta-feira, no Teatro dos Quatro, na Gávea, é o primeiro texto de Fernanda Torres para o teatro – um processo que durou anos e tem colaboração do conto A química da ressurreição, de Jorge Mautner, publicado no livro Tarja preta. Nele, não há foco na relação amorosa do casal Adão e Eva, não há sexo nem ciúmes, ou seja, não tem Rui e Vani. O que não significa que a música-tema do seriado, o bem-humorado bolero Você é doida demais, de Lindomar Castilho, também não se encaixe perfeitamente aqui.
– É um universo muito louco – assume Fernanda. – Comecei a idealizar a peça anos atrás quando eu li a biografia do (escritor americano e militante das drogas) Timothy Leary, Flashbacks: surfando no caos, e decidi fazer uma coisa sobre drogas. Achava que era um tema tabu, que ninguém falava, que virou baixo-astral. Só se tocava no assunto de uma maneira pomposa. É um bom tema para teatro porque, no palco, você discute a fundo as questões, pode usar linguagem metafórica. Eu tinha pensado em fazer uma peça com Gabeira, imagina só!
Bom, Deus é química não tem Gabeira, mas tem grande elenco, que inclui Jorge Mautner, Francisco Cuoco, Fransergio Araújo, Saulo Segreto e um coro formado pelos jovens Cesar Miranda, João Lucas Romero, Lucas Oradovschi e Vicente Coelho (da elogiada peça universitária Mundo grampeado – Uma ópera tecno-tosca). Os figurinos são de Felipe Veloso, a iluminação é de Jorginho Carvalho, e a trilha sonora deste “quase musical de bolso”, como define a dramaturga estreante, de Hamilton Vaz Pereira e Wallace Cardia (que também assina a sonorização e está em cena).
O texto narra as aventuras de Adão e Eva (Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres), “presos” em casa por causa de mais um tiroteio na Rua Barão da Torre, em Ipanema. Ele espera uma “pizza” (que vem junto com uma encomenda de drogas) e Eva assiste ao velório do Papa João Paulo II. Acabam recebendo a visita de um ex-professor da USP (Francisco Cuoco) que fora banido por incentivar o uso das “drogas da felicidade” nos anos 60 e 70. É o mestre que lhes apresenta Babadá (Jorge Mautner) e faz o casal embarcar numa viagem maluca e frenética que passa por Himalaia, Afeganistão, Bagdá, Amazônia, num roteiro intenso. Por coincidência, foi justamente numa viagem impetuosa que os atores descobriram que tinham afinidade cênica.
– Fomos para a África numa das viagens mais loucas que fizemos. Testamos tudo: rafting, passeio de balão, canoagem com rinoceronte – lembra Luiz Fernando. – Nós fizemos aquele turismo fotográfico; a Fernanda fala fluentemente inglês e eu sou uma pata. Para me ajudar, fazia tradução simultânea. Percebi logo uma coisa ótima de ritmo entre a gente. Ela conseguia, ao mesmo tempo, responder a mim e falar com nosso guia em inglês coisas dificílimas sobre o javali. Quando cheguei, recebi a proposta da Fernanda Young e do Alexandre Machado (roteiristas do programa Os normais) procurando uma noiva para mim. Eu falei: já tenho noiva e inclusive as fotos para colocar no cenário das nossas viagens. É a Fernanda Torres.
No teatro, os atores se encontram em 5 x comédia (de Vicente Pereira, Mauro Rasi, Pedro Cardoso, Luis Fernando Verissimo e Hamilton Vaz Pereira, 1995), série de monólogos também encenada por Hamilton, diretor do emblemático grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, que fez história nos anos 70 e 80. Mais recentemente, ela esteve em cartaz com A casa dos budas ditosos (2004), monólogo baseado no romance erótico de João Ubaldo Ribeiro, e ele em O caso da rua ao lado (2003), do francês Eugène Labiche, com o qual ganhou o Prêmio Qualidade Brasil de melhor ator teatral de comédia. Voltar a trabalhar com o Hamilton foi desejo de ambos.
– O Luiz tinha um projeto com Hamilton de fazer um tipo de teatro diferente – lembra a atriz. – Sugeri que eles lessem o meu texto e, no fim, toparam fazer a peça. E é engraçado porque, quando eu terminei de escrever o espetáculo, pensei: é uma peça do Hamilton.
O diretor achou o mesmo. Com uma estrutura que começa em ensaio aberto, com os atores lendo partes do texto, e continua com teatro pleno, o espetáculo reunia aspectos que fizeram Hamilton sair da leitura completamente entusiasmado.
– Primeiro, me encantei pela perspicácia do texto, muito divertido, interessante – define. – Depois, pelo tema. Drogas lícitas e ilícitas e globalização. Também senti uma ligação com algo que eu fazia com o Asdrúbal Trouxe o Trombone e também com o Fausto Fawcett nos anos 80: tirar a dramaturgia carioca da sala de estar. Ou seja, deixar de centrá-la nos conflitos de geração e domésticos. Havia outros temas a serem tratados! Mas foi um impulso solitário. Quando li Deus é química percebi que Fernanda fazia eco com o mesmo tema que eu sempre quis discutir.
Teatro dos Quatro, Rua Marquês de São Vicente, 52, 2º andar, Shopping da Gávea, Gávea (2274-9895). Capacidade: 402 lugares. 5ª a sáb., às 21h, e dom., às 20h. R$ 60 (5ª), R$ 70 (6ª) e R$ 80 (sáb. e dom.). Estudantes e idosos pagam meia. 16 anos. Duração: 1h30. Venda pela internet: www.ingresso.com. Até 27 de setembro.
17/08/2009 13:24
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