Dirigida por Felipe Hirsch, Fernanda Montenegro dá vida a conjunto de textos de Simone de Beauvoir
Luiz Felipe Reis

Desde 2000, Felipe Hirsch e Fernanda Montenegro se empenham para acertar detalhes e abrir brechas na agenda para um possível trabalho em conjunto. Quase uma década depois, num truque do acaso – era um projeto que a atriz havia delineado com Sérgio Britto, antigo companheiro de vida e palco – que ela cai nas mãos do diretor curitibano. Devido ao sucesso de sua temporada com textos de Samuel Beckett – A última gravação de Krapp e Ato sem palavras 1 – Britto ficou impossibilitado de prosseguir, com a amiga, o sonho de montar uma coletânea de textos da escritora francesa Simone de Beauvoir. Saiu de cena. Com o palco livre e a dama do teatro brasileiro à disposição, Hirsch não titubeou em aceitar a missiva do destino. E agora empresta contorno dramatúrgico aos retalhos e fragmentos de cartas e apontamentos autobiográficos selecionados pela atriz. O resultado é o monólogo Viver sem tempos mortos, em cartaz a partir desta sexta no Oi Futuro. A peça inaugura, em setembro, o novo teatro do Fashion Mall.
– Prometíamos um ao outro que faríamos uma peça. Como o Sérgio não pode continuar, chegamos nesse trabalho – conta Hirsch. – Acredito que cerca de 30 livros foram usados na pesquisa, que durou boa parte da vida da Fernanda. Foi um processo de lapidação. Disse que gostaria de montar algo que estivesse na cabeceira dela, que fosse muito próximo do dia a dia. Livros especiais que não te abandonam nunca.
Na cabeceira de Fernanda Montenegro repousavam escritos de Clarice Lispector e Simone de Beauvoir. Duas escritoras que mergulharam, como poucas, na alma feminina contemporânea.
– Pensamos em fazer Clarice nos próximos anos. Já conversamos bastante sobre o assunto – antecipa o diretor. – As duas escritoras ocupam um espaço enorme no pensamento de Fernanda. Uma das maiores contribuições de Simone é essa ponte que liga, atravessa e confunde a vida com a obra. A peça trata da liberdade implicada nesse processo. Simone, de fato, viveu e escreveu para mostrar essa necessidade. E o título é como um emblema, no sentido de gozar a vida plenamente.
Apoiada em sua compilação pessoal de pensamentos, Fernanda Montenegro trava, no palco, uma despojada e modesta aproximação com a inesgotável obra da escritora, pensadora e ensaísta que revolucionou a visão do feminino.
– Fui jovem numa época emblemática. Sou de uma geração que se pronunciava e ia às ruas para pensar e sentir. Devemos refletir sobre o nosso cotidiano saturado de esperanças não realizadas, pela falta de inteligência e, infelizmente, pela brutalidade – dispara a atriz. – Neste sentido, Viver sem tempos mortos oferece também uma oportunidade para que o público jovem conheça um pouco mais sobre a paixão, a energia, a audácia e as contradições humanas de Simone de Beauvoir, uma das pensadoras mais influentes do século 20.
Após uma temporada nos teatros do Sesc-Rio, acompanhada de palestras, exposições e livros e de uma passagem por São Paulo, a peça chega ao Rio com um plus luxuoso. Cada uma das 12 encenações será seguida por um debate com a atriz. Às quintas, a partir das 19h30, será exibido também o documentário inédito Uma mulher atual, de Dominique Gros.
– Queríamos partilhar o esforço que precede a criação de um espetáculo. Não dispensamos nenhum degrau até chegarmos ao formato da peça, que é intimamente ligada às entrelinhas – conta o diretor. – Fernanda tinha vontade de mostrar ao público um pouco do material usado. Fotos, escritos, vídeos...
“Ela tem um zelo total pelo trabalho"
Dona de um talento inquestionável e de uma posição que se redimensiona a cada ano no cenário artístico nacional, Fernanda Montenegro é um mistério difícil de ser decifrado. Não que Felipe Hirsch impute a si o desafio, mas num misto de curiosidade e esforço interpretativo, empresta dois possíveis caminhos para analisar o trabalho de sua mais nova parceira de teatro:
– É claro que existe o fator inexplicável, que eu não vou tentar inventar. O explicável é a sua capacidade natural de se conectar com emoções distintas. Ela é atenta demais ao mundo que a cerca. Fernanda é uma antena racional e emocional em que tudo desperta curiosidade.
O diretor conta que trabalhar com a atriz lhe serviu para melhor compreender, ou redefinir, o conceito de ensaio.
– Até encontrá-la, eu tinha a impressão de que ensaiava demais. Mas vi que não... Ela tem um zelo total pelo trabalho. É impressionante observar a maneira como constrói seus caminhos. Isso só acontece com muito suor, realmente não basta ter todo o talento. É preciso carinho, delicadeza e toda a profundidade no tratar.
OI Futuro – Rua Dois de Dezembro, 63, Flamengo (3131-3060). Cap.: 84 pessoas. 6ª a dom., às 19h30. R$ 15. Estudantes e idosos pagam meia. 16 anos. Duração: 1h. Até 30 de agosto.
31/07/2009 12:11
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