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Por um fio

Até que a morte nos separe 

Sob direção de Moacir Chaves, livro de Drauzio Varella sobre doentes terminais rende reflexão sobre o tempo

Luiz Felipe Reis

Até que a morte nos separe

Assim que terminou a leitura e desgrudou seus olhos de Por um fio, escrito pelo médico e escritor Drauzio Varella, lágrimas  surgiram no rosto do diretor Moacir Chaves. Encantado com o que acabara de absorver, não tardou a comprar os direitos sobre a história, que narra a convivência  de um oncologista com seus pacientes acometidos de câncer e coloca o tempo como protagonista. No palco, revezando-se entre os personagens das 11 histórias curtas extraídas do volume, estão Regina Braga (esposa de Varella) e Rodolfo Vaz. Estreando com o espetáculo nesta semana no Sesc Ginástico, Chaves espera instigar uma reflexão instantânea sobre o espinhoso tema.

– É um espetáculo comunicativo e emocionante – define o encenador. – Mas os sentimentos transbordados são instrumentos de prazer, não de sofrimento. As pessoas riem e choram muito. E posso assegurar que não são lágrimas de tristeza, mas, sim, de amadurecimento.

Construída a partir de depoimentos que foram colhidos por Varella durante cerca de 20 anos, a montagem de Chaves incumbe ao tempo a tarefa de fio condutor entre o texto e o seu tema central: a discussão da mortalidade.

– Assim que terminei o livro, fiquei remoendo a questão do tempo – diz. – Fiquei tocado, porque Drauzio relata com sensibilidade e rigor literário trajetórias de vida que se transformaram radicalmente com a reavaliação diante da  morte. 

A atriz Regina Braga completa:

– São  pessoas que tiveram suas vidas transformadas. Levaram um susto ao perceber a proximidade da morte. – A peça  fala de todos nós, já que todos vamos morrer um dia. E precisamos aproveitar a vida até lá.

E até lá... Como é que aproveitamos o tempo e a nossa vida? Como viver e desfrutá-la durante esse prazo, incógnito, que nos é concedido? Autor e diretor tencionam despertar, no leitor ou espectador, um olhar diferenciado acerca da temporalidade.

– Nosso olhar se modifica quando tomamos ciência de que somos mortais, que iremos todos morrer. E pode ser que seja cedo, ou que estejamos à beira da morte – acredita Chaves. – Estimulamos a percepção e a reflexão sobre como estamos lidando com a nossa existência. Afinal, vivemos como se fôssemos imortais, como se nossa passagem não fosse transitória. Só passamos por aqui uma única vez. E quando somos vitimados por uma doença grave é que percebemos isso com mais nitidez.

O diretor conta que o autor de Por um fio  teve participação fundamental no projeto. Ainda que só tenha se integrado  no fim do percurso.

– Ele não participou da construção. Seu papel foi de total apoio, confiança, liberdade e autonomia – conta. – Quando apresentamos o espetáculo praticamente pronto, ele ficou muito contente e deu alguns bons palpites. Estruturamos a peça ao longo dos ensaios. O livro não apresenta uma história com início, meio e fim. Organizamos, usando a narrativa original, a melhor formatação possível.

Esperado encontro  entre elenco e diretor

Além da paixão pelo livro, a vontade de trabalhar com o diretor Moacir Chaves já era alimentada há tempos por Regina Braga. Após duas visitas ao Rio, o projeto ganhou vida no palco:


– Eu já tinha uma relação pessoal com o Moacir e sempre tive muita admiração e vontade de trabalhar com ele, especialmente depois que vi o Sermão de Quarta-feira de Cinzas. Fui ao Rio com Um porto para Elizabeth Bishop, e aí conversamos. Depois fui a convite dele fazer Bishop no Planetário da Gávea. Ficamos com vontade de trabalhar juntos e quando surgiu a peça ele me chamou para o elenco  – conta Regina.

A união entre Rodolfo Vaz e a atriz também ocorre após um longo namoro profissional.

– Conheci alguns trabalhos do Rodolfo no Grupo Galpão, mas o que mais me marcou foi a peça Salmo 91. Fiquei muito tocada pelo trabalho dele no espetáculo. Senti no Rodolfo uma fonte de criatividade da qual eu queria estar perto – conta ela.

Foi a partir de Salmo 91 que Rodolfo entrou em contato com os textos de Drauzio pela primeira vez. A peça se baseava no livro Estação Carandiru, primeira obra literária do médico.

– Quando me chamaram para o papel, comprei o livro e fiquei completamente alucinado. Vieram à tona várias histórias associadas à minha vida. Começo a lembrar e já me emociono. É um lado bonito na minha carreira artística fazer esse texto. É um privilégio ter na mão um texto tão bonito, tão chocante e humano.

Teatro Sesc Ginástico – Av. Graça Aranha, 187, Centro (2279-4027). Cap.: 521 pessoas. 5ª a dom., às 19h. R$ 30 (5ª e dom.) e R$ 40 (6ª e sáb.). Estudantes e idosos pagam meia. 12 anos. Duração: 1h10. Até 13 de setembro.

27/07/2009 12:20

Comentários (5)

  1. eduarda

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