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O continente negro

Aderbal Freire-Filho estreia duas peças essa semana 

Débora Falabella e Ângelo Antônio estão no elenco

Luiz Felipe Reis

Aderbal Freire-Filho estreia duas peças essa semana

“Estou à beira do abismo, próximo de me atirar”. O desabafo é de Aderbal Freire-Filho, causado por seguidas noites de insônia. Nos últimos meses, uma série de compromissos marca uma rotina estressante: dezenas de reuniões e ensaios para pôr em ordem os últimos detalhes para os dois espetáculos que coloca em cartaz num período de uma semana, O continente negro, a partir desta quinta, no Teatro Nelson Rodrigues, e Moby Dick, que atraca dia 23 no Teatro Poeira.

– Ultimamente estou numa grande tentativa de encontrar soluções e caminhos para algo que me aflige há meses, mas nessa arrancada final não dá nem para imaginar – comenta Aderbal. – Comecei a adaptar Moby Dick no fim do ano passado, durante os ensaios mesmo. E agora, junto com O continente..., a loucura aumentou.

A proximidade, apesar de afligir o diretor, dá a oportunidade de trabalhar com dois textos de qualidade.

– Já havia mostrado O continente negro a algumas pessoas quando surgiu o convite do Grupo 3 de Teatro para que eu dirigisse – lembra Aderbal. – Foi coincidência, um encontro felicíssimo. Começamos a trabalhar há dois anos e para mim a peça permanece novíssima, de uma contemporaneidade que não se perde.

Escrita pelo dramaturgo chileno Marco de La Parra, O continente... reúne no palco 12 atores. Homens e mulheres que se relacionam e experimentam intensas turbulências amorosas. Interpretada por Débora Falabella, Ângelo Antônio e Yara de Novaes, entre outros, esta é a primeira montagem no Brasil de La Parra, reconhecido como um dos expoentes do teatro latino-americano contemporâneo.

– Ele abre o espetáculo citando um diretor argentino que, além de ser meu amigo, é importante como referência, o Omar Grasso. Nossas conversas foram fundamentais para a realização dessa peça – afirma o diretor, que, em março, levou Hamlet, interpretado por Wagner Moura, ao Oi Casa Grande.

Conselheiro durante muitos anos do Festival Internacional de Teatro de Cádiz, na Espanha, Aderbal estendeu uma de suas viagens ao país até Madri para assistir pela primeira vez à montagem do autor chileno. O impacto foi imediato. Lá, pôde notar o grau de influência que o teatro realizado pelo dramaturgo tem nos países hispânicos.

– Conhecia os textos dele há algum tempo, porque tenho uma relação muito próxima com o teatro hispano-americano – conta Aderbal. – Trabalhei com muitos espetáculos em Montevidéu e em Buenos Aires. Pude conhecer muitas companhias, autores e atores. Há um relacionamento e um intercâmbio constante entre os hispânicos. Eles conversam com certa intimidade sobre obras e realizadores da Colômbia, por exemplo. Uma troca que não ocorre com o Brasil.

Envolta numa linguagem dinâmica e moderna, que abriga no cenário diversos cômodos de residências, bicicletas e um carro, a peça insere o espectador no meio dos conflitos vividos pelos atores. Uma atmosfera que traduz o cotidiano de pessoas que se conectam através da melancolia e de inquietações mentais.

– São personagens marcados por encontros e desencontros, que se revezam para expor fragmentos de suas vidas – explica. – Eles desenham o estado do homem e da mulher nos dias de hoje.

Recheada de ironias e ambiguidades, o trabalho de La Parra – considerado herdeiro de Fernando Arrabal e Samuel Beckett – visita uma teatralidade discreta, que se afasta do melodrama, mesmo tratando das dores de amor que cercam os personagens da história.

– A peça fala da dificuldade generalizada que temos em nos deixar entrar um no mundo do outro. É sobre o homem e seus sentimentos, desejos e fracassos – enumera. – Retratamos a dificuldade de comunicação entre os personagens, e não só os problemas relacionados aos conflitos amorosos. Gosto do título porque ele não diz exatamente do que tratamos. Não é óbvio. Deixa um suspense e se revela como um mistério. Algo distante e desconhecido como muitas coisas que estão perto da gente.

Integrante e fundadora do Grupo 3 de Teatro, ao lado de Yara de Novaes e Gabriel Paiva, Débora Falabella conta que o grupo pensava em montar um texto clássico quando se deparou com o trabalho de La Parra. Apresentaram o projeto a Aderbal, que não teve como recusar a tarefa que ele mesmo já havia se incumbido anos antes.

– Ele já conhecia o autor e aceitou nossa proposta de trabalho com muito carinho, já que sua marca registrada é a delicadeza com que trata os atores – elogia a atriz. – Ele é um cavalheiro, dirige muito bem e também possui um estilo teórico exemplar. É um verdadeiro professor.

A cargo de três personagens, Débora reafirma as palavras de Aderbal sobre o texto que, a seu ver, escapa da visão piegas e dramática geralmente emprestada às montagens que abordam os relacionamentos amorosos como tema.

– É um foco diferente. O que importa é o que não é dito, o que não se mostra – define. – A primeira das minhas personagens é a Luiza, uma menina apaixonada pelo professor de desenho. Um daqueles relacionamentos impossíveis de acontecer, porque a diferença de idade entre eles é muito grande. A segunda é Ela, uma mulher metida numa relação conturbada com o namorado. E a Ana, a última, que vem morar com a irmã e acaba tendo um caso com o cunhado. Experiências diferentes, mas todas muito intensas.

Na versão teatral para o romance de Herman Melville, Moby Dick, Aderbal se afastou do formato romance-em-cena, nos moldes de A mulher carioca aos 22 anos, de João de Minas (1991), O que diz Molero (2003), de Dinis Machado, e O púcaro búlgaro (2006), de Campos de Carvalho, em que a encenação respeitava a narrativa, com pouquíssimos cortes. Mas com uma obra generosa em número de páginas, não haveria outro jeito se não o desafio de imiscuir dramaticidade à estrutura narrativa. Há duas semanas da estreia, ele ainda não finalizou o espetáculo. Corre contra o tempo para acertar a dramaturgia da adaptação para o livro que leu há tempos, mas que permanece como uma de suas principais referências literárias.

– O livro permaneceu com uma grandeza maior que as adaptações já feitas. É mais uma oportunidade que eu tenho para estender o campo do possível na dramaturgia. O tempo no romance é muito mais apreendido, no teatro você condensa. Como diretor, gosto de me apropriar desse universo amplo dos romances, explorar os textos.

17/07/2009 22:25

Comentários (3)

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