Erguido no século 19, o castelo recebe mais de 1 milhão de visitantes por ano e, diferentemente de outras construções deste tipo, erguidas para proteger cidades, ele existe por um causa de um louco sonho romântico
Victor Andrade
Castelos sempre foram construídos por dois motivos. Primeiro, para evitar invasões. Segundo, para revelar o poder de seus ocupantes. O mais famoso castelo do mundo – que recebe 1,3 milhão de visitantes ao ano – porém, foi erguido com um propósito singular: capricho. Só isso. Ou, se o caro leitor preferir, para realizar um louquíssimo sonho romântico. Quando o monumental Neuschwanstein começou a ser edificado, no sul da Alemanha, na segunda metade do século 19, castelos não estavam mais na ordem do dia. Eram um legado da distante Idade Média. Enfim, águas passadas. Àquela altura, afinal, os monarcas europeus andavam mais preocupados com a ameaça dos conspiradores republicanos e das colônias rebeldes. Mas o rei da Baviera, Ludwig II (por favor, resistamos a chamá-lo de Ludovico) não era apenas mais um rei. Longe disso. Ludwig era uma figuraça!
Sim, Neuschwanstein, o castelo dos sonhos de Ludwig II, é tão romântico e grandiloquente quanto a obra de Richard Wagner. Mas, nesse caso, a inspiração não foi musical. O excêntrico Ludwig II tambem era fascinado pela monarquia francesa e, sobretudo, por Luis XIV. Foi inspirado nele, e em sua ostentação, que ergueu não apenas Neuschwanstein. Perdulário, também ousou construir outros dois palácios na região: Linderhof e Herrenchiemsee. “Pretendo reviver o espírito das antigas armadas e dos genuínos cavaleiros alemães, construindo uma fortaleza medieval de verdade nessa montanha”, declarou Ludwig II. Foi assim que Neuschwanstein começou a ser erguido, em 1869. Três anos depois, a empreitada consumia 450 toneladas de cimento.
Outros sete anos e os gastos com mármore pesavam 465 toneladas no orçamento. Ludwig II mandou pavimentar uma estrada só para erguer o castelo. Em 1881, as despesas já haviam suplantado em seis vezes a estimativa inicial. Seja como for, Ludwig II não conseguiu aproveitar seu castelo como imaginava. Residiu poucos meses no prédio de seus sonhos. Dois anos depois de estrear a construção, morreu em circunstâncias obscuras. Foi encontrado afogado, no Lago Starnberg, em companhia de seu médico, o dr. Gubben. Tinha 41 anos. Àquela altura, já havia sido diagnosticado como louco, deposto e dado como incapaz de administrar a própria vida – quanto mais o Reino da Baviera. Ainda assim, sabe-se que era um bom nadador, o que torna ainda mais nebulosa sua morte no lago. Teria ele se matado em pacto com o médico? Ou teria sido assassinado por algum inimigo? Muitos dos milhares de turistas orientais – agora, mais chineses que japoneses – que visitam Neuschwanstein todos os anos não chegam a se fazer essa pergunta. Estão mais atarefados em conhecer o “mais belo castelo do mundo”.
Quando chegam a Schwangau, nas proximidades da pequena cidade medieval de Füssen, a um pulo da fronteira da Áustria, parecem mais preocupados em verificar a bateria de suas moderníssimas câmeras digitais. Afinal, deixar de registrar imagens do castelo seria uma suprema desilusão. Alguns sobem de ônibus. A maioria prefere gastar meia hora a pé. Como num ritual em homenagem ao Rei Louco. A maioria dos visitantes também não está nem aí com a opinião de diversos críticos que consideram o castelo a quintessência do kitsch, um pastiche de diversos estilos. De fato, Neuschwanstein é composto de salas góticas, românticas, bizantinas – para ficar em apenas três influências.
É esse romantismo que atrai 6 mil pessoas por dia ao castelo de cinco andares – parecem mais pavimentos devido ao imenso pé-direito de cada piso. Cada visita dura 40 minutos. Na roleta de acesso, o turista apanha o equipamento de áudio. O tour começa pelo 1º andar, onde moravam os serviçais, que se revezavam ao longo de 24 horas, para que o rei sempre tivesse criados à disposição. Os aposentos são austeros, mas confortáveis.
20/07/2009 15:08
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