Pianista italiano toca peça de Ravel criada para instrumentista ferido na Primeira Guerra
Monique Cardoso

Nos anos 20 do século passado, em vez de lamentar a perda do braço direito num combate durante a Primeira Guerra, o pianista austríaco Paul Wittgenstein escreveu a diversos compositores pedindo que escrevessem composições que ele pudesse tocar em sua nova condição. O francês Maurice Ravel estava, por esta época, compondo um concerto para piano – para duas mãos, obviamente. Mas sentiu-se, ao mesmo tempo, comovido pelo inusitado pedido e incitado pelo desafio de criar uma peça com tais requisitos. O resultado da determinação do instrumentista em continuar tocando é uma peça recheada de tons jazzísticos que recebeu o nome de Concerto para mão esquerda, e foi estreada em 1931 por Wittgenstein e apresentada no ano seguinte na França, com regência do próprio Ravel. Raramente apresentado no Brasil, tão singular concerto poderá ser ouvido nesta sexta-feira, às 20h, na Sala Cecília Meireles, pelo italiano Benedetto Lupo e a Orquestra Sinfônica Brasileira.
– É uma peça maravilhosa e, ao mesmo tempo, muito difícil. O fato de eu ser canhoto não ajuda muito, mas me sinto um pouco mais em casa quando eu a toco – confessa Lupo, que faz sua segunda passagem pelo Brasil, após estrear no país em 1986.
Lupo sai em uma defesa apaixonada da composição, que incluiu há algum tempo em seu repertório. Para ele, o concerto para ser tocada com uma mão só não é um mero instrumento para a demonstração de virtuosismo. Uma única mão de um pianista trava batalha com uma orquestra inteira para não submergir em seu volume.
– A técnica para compor uma peça como esta é espantosa! Tantas coisas acontecem ao mesmo tempo e rapidamente... A forma como os temas são transformados e como eles são forçados a conviver, especialmente durante a marcha no meio do segundo movimento, é uma maravilha em si – descreve ao Jornal do Brasil. – Claro que seria muito mais fácil demonstrar tudo isso, conversando com um piano do meu lado e não através de uma entrevista!
Muitas notas, poucos dedos
Para explicar a preparação para tamanho tour de force , Lupo recorre à mítica em torno da própria peça. Ele a compara com o Concerto para piano em sol maior que Ravel estava compondo quando recebeu a carta de Wittgenstein:
– A preparação mais séria, além dos aspectos artísticos que expliquei, embora a peça tenha sido escrita para uma só mão, ela contém mais notas que o concerto de Ravel em sol maior, que é mais longo e composto para duas mãos.
A carreira internacional de Benedetto Lupo decolou quando começou a faturar medalhas em concursos importantes como o Van Cliburn (1989) e Terence Judd Award em Londres (1992). O pianista se apresenta como solista convidado pelas melhores orquestras do mundo e tem uma bela carreira fonográfica. Um de seus mais recentes discos, em que registrou, pela segunda vez, o Concerto Soirée, do compositor Nino Rota, arrematou o Diapason D'Or, da publicação francesa Diapason. Lupo tem uma relação íntima com Rota.
– Rota foi meu mentor, quando eu era um jovem estudante no Conservatório Piccini, onde ele foi diretor. Ele tinha certeza de que eu poderia obter a melhor avaliação dos professores. Tenho maravilhosas lembranças daqueles primeiros anos de estudos em Bari. Sua personalidade era um ímã para muitos músicos que vinham regularmente para minha cidade natal, enquanto eu era um estudante lá.
Nino Rota, morto há 30 anos, foi um dos mais importantes compositores de trilha sonora do século 20. Fiel colaborador de Fellini, criou emblemáticos temas para clássicos como Amarcord e La dolce vita. O Concerto Soirée, que Lupo também apresenta no concerto de hoje e de amanhã, é uma homenagem ao gênio do cinema italiano. Para o pianista, a fama com as trilhas deu a ele espaços privilegiados para que expusesse sua chamada “música séria”, de concerto. Lupo é professor no conservatório que leva o nome do compositor.
– Diferentemente de Enio Morricone, sua carreira como um compositor sério nunca foi posta em dúvida. O problema é que sua fama como compositor de trilhas ofuscou seus outros trabalhos – analisa. – No entanto, é verdade que a mesma fama ajudou sua música séria ser conhecido depois que ele morreu. Nino Rota nunca viu um fosso que separasse música para cinema e para concerto. Para ele, sempre houve apenas música boa ou ruim.
Nesta temporada, Lupo fez sua estreia no Mostly Mozart Festival, em Nova York, e na série de assinaturas da Sinfônica de Chicago. Tem sido convidado para master classes no mundo inteiro e faz parte do corpo de jurados de dois prestigiados concursos de piano, o Internacional de Cleveland e o Gina Bachauer, em Salt Lake City. O intérprete sabe como estas competições ajudam na carreira de quem se dedica a ser solista, mas faz uma pequena crítica ao processo.
– Nunca gostei de competições, mas, como a maioria dos pianistas, tive de participar delas. Estes concursos continuam a ser úteis, pelo menos os maiores, porque podem proporcionar lotes de concertos. Acho que o melhor prêmio que essas competições podem dar é a oportunidade de se apresentar, não o dinheiro.
Sem julgamentos
O pianista diz que normalmente não se sente confortável nesses julgamentos, mas diz que a oportunidade de escutar, atentamente, um jovem de talento verdadeiramente significativo pode ser uma das mais refrescantes experiências da vida de um artista.
– Muitas vezes os resultados podem ser bons para alguns e decepcionantes para outros. Em todo caso, é difícil esperar que uma competição nos dê aquele que será o pianista do futuro. Podemos pedir que nos dê um retrato, possivelmente fiel, de como esses jovens estão tocando naquele momento de sua iniciante carreira – pondera. – Isso se tiver um júri honesto. Nutrir a arte de um jovem pianista é um processo longo e, por vezes, concursos tendem a destruir esse processo. No entanto, para muitos dos que não têm professores influentes, que podem torná-los conhecidos, concursos são a única chance de prospectar seu nome, então é por isso que as competições continuam a ser importantes.
Sala Cecília Meireles - Largo da Lapa 47, Centro (2332-9160). 6ª, às 20h e sáb, às16h. R$ 88 (Plateia Superior) e R$ 172 (Plateia). Capacidade: 835 lugares. Censura: Livre. Ingressos à venda na bilheteria do teatro, pelo telefone (21) 3344-5500.
24/07/2009 11:52
nuJDLQ hsbjwajcpljt, [url=http://khkfzfhsshdl.com/]khkfzfhsshdl[/url], [link=http://oaozpxhsiakc.com/]oaozpxhsiakc[/link], http://kjijbwvkfgxc.com/
8JGt2Z iafreioizyus, [url=http://ycfsovttslgn.com/]ycfsovttslgn[/url], [link=http://qshnrxiecedo.com/]qshnrxiecedo[/link], http://fqujwluilvlm.com/
AAhIzJ uzbwbklxeyln, [url=http://mnihhvvsodbg.com/]mnihhvvsodbg[/url], [link=http://lmlvmcyqjkpx.com/]lmlvmcyqjkpx[/link], http://onxjhbqieexx.com/