
Cineasta inglesa só conhecia o escritor brasileiro de nome
Carlos Heli de Almeida

A diretora inglesa Emily Young nunca havia lido um livro de Paulo Coelho quando os produtores da Das Films lhe ofereceram a direção de Veronika decide morrer, adaptação do romance homônimo do escritor brasileiro que estreia no circuito nacional. Ainda fresca da boa repercussão de Kiss of live (2003), seu modesto longa-metragem de estreia, selecionado para a mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes daquele ano, a cineasta não queria perder a oportunidade de ganhar um upgrade na carreira, no vácuo da trajetória de um dos autores mais vendidos do planeta.
– É claro que eu sabia um pouco sobre ele, da reputação da obra que ele vinha construindo, mas nunca lera nada dele antes, até porque não é o meu gênero de leitura – admite a diretora de 38 anos. – Só vim a ler Veronika depois que recebi uma das primeiras versões do roteiro do filme.
A falta de familiaridade com o universo de Paulo Coelho não a impediu de descobrir afinidades com os temas que o autor costuma explorar em seus trabalhos.
– Confesso que descobri no livro não apenas uma boa mensagem, que é a busca por uma nova possibilidade de encarar a vida, mas também uma bela história. Eu me identifiquei com o caráter de conto de fadas da trama – comenta Emily. – Não sou uma pessoa mística, como Paulo, mas acredito numa dose de magia, a possibilidade do amor, dos caminhos inesperados que a vida toma.
Livro e filme contam a história de uma jovem nova-iorquina aparentemente bem-sucedida na vida e na carreira que tenta o suicídio e acorda numa clínica psiquiatra particular. Os médicos a comunicam que a tentativa desesperada não foi exatamente um fracasso: o trauma afetou seriamente seu coração e agora ela tem poucas semanas de vida e que, provavelmente, morrerá enquanto estiver internada. Durante esse período, Veronika terá que lidar com as consequências de seu ato.
– A ideia de um novo começo após decidirmos terminar com a própria vida é muito diferente e interessante – filosofa a diretora.
A personagem é interpretada por Sarah Michelle Geller, que até pouco anos ganhava cachês matando monstrengos no popular seriado de TV Buffy – A caça-vampiros.
– A escolha de Sarah foi perfeita para o papel porque ela personifica a jovem moderna e, no filme, vemos uma mulher contemporânea que de repente se encontra em uma situação incomum, quase de outro mundo – afirma Emily.
A mais trabalhosa dessas fases foi chegar a um roteiro – assinado, oficialmente, por Larry Gross e Roberta Hanley – que agradasse a todas as partes envolvidas. A mudança mais marcante foi a transposição da história, que se passa na exótica Eslovênia, para a Nova York contemporânea.
– Ao trazermos o drama de Veronika para uma grande cidade americana, aumentamos o contraste com o quê de conto de fadas que existe no livro. Nova York é mais real, o que dá ao filme uma atmosfera mais verossímil – destaca a diretora. – É como trouxemos Veronika, uma típica garota dessa cidade, para esse mundo estranho.
Nem tudo parece ser o que é em Veronika decide morrer. Funcionários e pacientes da clínica, numa área erma e afastada de grandes centros à margem do Rio Hudson, agem como se relutassem a fazer contato com o mundo real. O mais misterioso é Dr. Blake (David Thewlis, o Remus Lupin da franquia Harry Potter), o diretor da instituição, que parece fazer dos internos cobaias de suas pesquisas. A revelação da doença fatal de Veronika revela-se um truque para uma de suas teses: a de que o temor da morte a fará encarar a vida de outra forma.
– A ideia era transmitir a impressão de que aquele hospital muito peculiar pudesse estar em qualquer lugar do planeta – avisa Emily.
Forçada a conviver com outros dramas na clínica, como a do jovem Edward (Jonathan Tucker), catatônico e mudo desde que causou a morte da namorada num acidente de carro, Veronika passa a recuperar o amor pela vida, alimentando o desejo de aproveitar os últimos dias que lhe restam. O elenco ainda tem Melissa Leo, indicada ao Oscar de Melhor Atriz pela performance no drama independente Rio congelado (2008), de Courtney Hunt.
– Para um segundo longa, é um time dos sonhos, não? – conclui a cineasta.
20/08/2009 09:11
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