Artista conclama o espectador a mergulhar na eterna expectativa
Bolívar Torres

Cinco projeções de vídeo não-sincronizadas capturam instantes de vida em um bairro da cidade de Marselha, no sul da França. Aos poucos, a câmera foca com atenção demorada um ou outro rosto presente no campo da imagem. Mas, assim que se começa a distinguir as feições, a continuidade quebra. Som e imagens são interrompidos por inserções mudas de um fundo preto. No início rápidas, as interrupções vão aos poucos se tornando mais lentas, até se tornarem imprevisíveis e criarem dobraduras de tempo dentro do vídeo e da nossa percepção, como uma brecha na memória e no pensamento do espectador.
Intitulada Accordions (The Belsunce Recordings), a obra exemplifica as reflexões de O Lugar sem o tempo (uma tradução do título original de duplo sentido, Taking time from place), do americano Gary Hill, um dos pioneiros da videoarte. Na exposição que marca sua volta ao Brasil depois de 12 anos e mostra ao público a partir de amanhã cinco instalações inéditas por aqui, a pesquisa sobre o tempo é marcada por um apagamento do ritmo, dos corpos e das paisagens, uma abertura e fechamento do espaço, que questiona a imagem real e a não real, assim como a linguagem compreensiva e a cognitiva.
– Não acredito que exista um “tempo” propriamente dito – explica Hill, em entrevista ao Jornal do Brasil. – Para mim, nossa relação mais próxima com o tempo é a morte. Se viver é aprender a morrer, morremos e vivemos a cada dia. Sabemos que algo novo irá acontecer, uma espécie de maravilhamento e viagem, e vivemos nesta expectativa.
Momento de quebra
Para Hill, a percepção de tempo está sempre condicionada ao espaço em que se insere. Mas o que mudou no mundo da imagem desde sua última exposição individual no Brasil, em 1997?
– Mudou nosso tempo de percepção e nosso tempo de observação. Há cada vez mais imagens em cada vez em mais lugares – responde. – Está cada vez mais difícil determinar o que é real e o que não é. Sempre evoluímos de maneira linear até o momento de quebra, em que aparece algo novo, o próximo nível. No meu trabalho, ao menos, são esses momentos que redefinem a noção de arte.
Hill entrou cedo no mundo das imagens. Aos 13 anos, o californiano de Santa Monica participou com um grupo de garotos do curta-metragem Skaterdater, de Noel Black, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 1966, e nominado para o Oscar no mesmo ano. Depois de começar a carreira como escultor, descobriu o vídeo nos anos 70, tornando-se um dos seus principais expoentes... Suas obras são marcadas pela presença do corpo, Não raro, provocam no espectador uma experiência física e mental intensa. Publicado em coleções importantes como o MoMa de Nova York, o Guggenheim, a Fundação Cartier e Centre Pompidou, Hill também ganhou o Leão de Ouro na Bienal de Veneza.
Quando entrou em contato com uma primitiva câmera de vídeo nos anos 70, percebeu que se tratava do dispositivo ideal para lidar com a representação do corpo e de si mesmo. Num de seus primeiros trabalhos, aliás, apontou a câmera para um monitor, que registrou seu próprio processo de filmagem, num exercício de espalhamento no melhor estilo Diego Velázquez.
Apesar da dedicação à ferramenta, Hill não gosta do rótulo de video-artista.
– Não é que me recuse a ser chamado de videoartista – pontua. – Acredito simplesmente que é um rótulo limitado para definir o trabalho dos artistas, que na verdade atuam em vários campos. No início, podia até ter sentido quando o vídeo não tinha sido institucionalizado como arte. De qualquer maneira, acredito que faço novas línguas, mais do que imagens. Sou um artista de linguagem, não do vídeo. É algo mais conceitual do que imagístico.
Zona fronteiriça
A exposição vai exibir instalações importantes como Viewers (1996), uma projeção de aproximadamente 14 metros de comprimento realizada a partir de cinco vídeos projetores presos ao teto que projetam imagens coloridas em tamanho real de trabalhadores diaristas. Virados de frente, parecem encarar a tela, sobre um fundo negro. A imagem é tão verídica que dá a impressão de que os personagens dividem a mesma peça que o espectador.
Em Wall Piece (2000), a imagem de um homem jogando-se repetidamente contra uma parede e falando uma única palavra a cada impacto é projetada num espaço completamente escurecido. Durante a gravação, um exclusivo flash de uma luz estroboscópica extremamente forte e intensa (apenas uma fonte de luz) “captura” o corpo no momento de contato.
Já Up Against Down (2008) explora a natureza física da linguagem, numa série de imagens projetadas de várias partes do corpo do próprio Hill forçando, pressionando ou empurrando contra um espaço aparentemente infinito, puramente um espaço preto.
– A arte de Hill é encontrar aquilo que é possível na natureza efêmera do objeto eletrônico – diz Marcello Dantas, curador da exposição. – É um trabalho fronteiriço, que investiga essa zona sombria onde nada é seguro e na qual o objeto não é apenas matéria. No mundo digital binário, não está interessado nem no um nem no zero, mas no que está entre os dois.
24/07/2009 14:10
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