Figura da onça inspira artistaa reavivar no público noção de natureza em exposição no Cândido Mendes
Bolívar Torres
Com seus hábitos noturnos e solitários, as onças se locomovem com facilidade na noite da floresta. Sua figura protege os caciques, ajudando-os a penetrar na escuridão do alma humana para curá-la. E também inspirou a artista plástica carioca Regina Vater a fazer sua nova exposição, VerVê ou O olho da onça, que abre segunda no Centro Cultural Cândido Mendes, em Ipanema. Fotografado em imagens de uma tela de televisão distorcida e desenhado em croquis ou em grãos de alimentos no chão, o animal se transforma no símbolo de uma nova percepção do mundo. O título, que traz o jogo entre as palavras “Ver” e “Vê” (reflexo da influência da poesia concreta na obra da artista) questiona a maneira como as pessoas veem o seu entorno e vivenciam suas experiências.
– Meu trabalho tem diversas camadas, que se interligam – diz a artista. – Uma é questão ecológica. Outra é a maneira como enxergamos o mundo natural e a própria arte. O mundo vive uma alienação cultural e social. Pelo que tenho acompanhado, a arte virou apenas indústria. Os artistas querem vender e não criar um canal que comunique seus insights com a vida.
A questão do olhar como um portal para novas dimensões e camadas de consciência aparece em um tapete em forma de onça, desenhado com grãos de arroz, feijão e milho – os alimentos básicos de todo o continente americano. Sua forma, que conjuga as conotações metafísicas do círculo, dá margem a várias interpretações: pode ser visto como uma calda, como um par de olhos ou como uma espiral. É ao mesmo tempo entrada para outras dimensões sensoriais e instrumento de cura da percepção – como acreditam as culturas arcaicas, cuja relação com os elementos naturais vai na contramão dos hábitos das nossas modernas civilizações industrializadas.
– A ideia é ver a arte como um banquete para o público – explica a artista. – Não interessa se a obra será vendida ou não, e sim se será uma festa para os olhos e para a alma.
Não por acaso, Regina foi uma das primeiras artistas a trabalhar com a questão da ecologia numa mostra internacional, com Luxo-Lixo, um poema visual apresentado na Bienal de Veneza, em 1976, realizado em colaboração com Hélio Oiticica em cima de texto de Augusto de Campos. Agora, em VerVê, ela tenta reconciliar o público com a visão que nossos antepassados cultivavam com o espaço sagrado.
– O círculo e a espiral são duas figuras constantes das cosmogonias arcaicas, que poderiam ser úteis para este mundo atual que não vê o que está ao seu lado – diz a artista. – Assim como esta questão do espaço sagrado das sociedades arcaicas. Quando você sabe que uma árvore merece respeito não irá cortá-la.
Outras obras trazem o que regina chama de “natureza eletrônica”, mostrando fotos de documentários animais numa tela de televisão com cores e brilhos distorcidos, que representam a noção alienada que as populações urbanas dividem com o mundo natural.
– As pessoas não têm contato com a natureza – diz. – Para as crianças, hoje em dia a galinha é um animal abstrato. Nem sabem o que é, o corpo do animal já vem pronto no supermercado, retalhado.
Considerada pelos críticos do mundo inteiro como uma artista inclassificável, Regina experimentou ao longo da carreira diferentes linguagens. Desde os anos 70, envolveu-se com vídeo, Arte Povera italiana, poesia visual, livro de artista, fotografia e performance. Morando há mais de duas décadas nos Estados Unidos, guarda a influências dos grandes artistas que encontrou pelo caminho, como Hélio Oiticica, que lhe ensinou a ver a arte como invenção e não exercício de truque.
– Sou um pesadelo para os críticos, que não conseguem rotular o que eu faço – brinca. – O Oiticica me colocava como uma outsider em função da minha curiosidade em experimentar tudo e pela minha recusa em entrar no circuito comercial. Infelizmente, a arte de hoje é um pacote. Artistas usam materiais novos, com intenção de fazer algo mágico, que seduza as pessoas sem ter conteúdo. Virou o
21/07/2009 17:44
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