Visitantes do mais famoso museu do mundo dedicam pouco tempo para apreciar os quadros e ler as informações sobre as obras
Michael Kimmelman, The New York Times
Passar uma manhã ociosa assistindo a pessoas admirando obras de arte passa longe de ser uma experiência científica, mas reacende uma dúvida constante: o que exatamente procuramos enquanto estamos vagando como turistas pelos museus? Com tantas coisas ao nosso alcance, a resposta pode ser muito útil, apesar de já não ser novidade.
Outro dia, no Louvre, no Pavillon des Sessions, duas moças de vestidos floridos estavam passeando pela galeria. Elas paravam e davam voltas ao redor de algumas esculturas, sem pressa. Examinavam tudo vagarosamente.
O pavilhão coloca cerca de 100 objetos imaculados do exterior da Europa em mostra permanente em várias salas no primeiro andar de galerias silenciosas e agradáveis. Máscaras de penas do Alasca, potes antigos das Filipinas, pinturas e esculturas em pedra do povo Maia e a mais incrível colher Zulu esculpida em madeira na forma abstrata, semelhante à letra S, que forma a silhueta de uma jovem mulher, não ficam atrás, esteticamente falando, das grandes obras de Titian e Chardin no andar de cima.
Essas moças eram exceção por se permitirem parar para apreciar as obras. A maioria dos visitantes de museus passeava pela galeria distraidamente.
Poucos turistas buscavam, em vão, informações nos guias de turismo e se detinham a ler o que estava escrito nos anúncios pregados na parede, como se aprender que uma ou outra dessas esculturas vinham de Papua Nova Guiné, do Havaí ou do Arquipélago de Santa Cruz, ou ainda, que saber que uma dada obra tinha três séculos de idade, pudesse ajudá-los a descobrir, com bastante precisão, o que havia apenas alguns anos antes de eles existirem.
Quase ninguém naquelas duas horas parou diante de nenhum objeto por mais de um minuto completo. Somente uma escultura de madeira do século 17, de um casal mantendo relações sexuais, de São Cristóvão das ilhas de Salomão, colocada perto de uma saída, fez com que os turistas parassem, sorrissem e tirassem uma foto, mas sem realmente parar para observar detalhes.
O desejo de visitar museus vem da necessidade de aumentar a qualidade do que conhecemos do mundo. Em parte, tendemos a visitá-los em busca de algo que já ouvimos falar, algo que reconheceremos: basta pensar na razão que constantemente leva uma multidão a disputar uma boa visão da Mona Lisa. Houve um tempo em que estudiosos liam, com muita atenção, cerca de 100 livros. Hoje, lemos centenas de livros, ou talvez nenhum, mas raramente com a mesma intensidade. Pessoas que viajaram pela Europa durante o século 18 passaram anos aprendendo idiomas, conhecendo políticos, filósofos, e artistas, esboçando em seus cadernos de anotações desenhos e pinturas, para registrar suas memórias, ajudando-as a ver melhor as coisas.
Câmeras substituíram os esboços no último século; a conveniência derrotou o comprometimento, e o zoom das câmeras modernas acabou fortalecendo o distanciamento emocional, fazendo com que muitas pessoas já não achassem a observação detalhada dos objetos algo tão necessário. Tornou-se possível pensar que, com a facilidade de reproduzir imagens seguramente compactadas em câmeras e celulares, bem como de disponibilizá-las na internet, ficar muitas horas observando uma obra original já não era mais preciso, especialmente em um mundo onde todos têm sempre tantas coisas para ver.
Podemos sonhar em explorar novos horizontes graças às coleções expandidas e aos meios de transporte mais rápidos. Ao mesmo tempo, o cânone artístico que estabeleceu parâmetros para dizer às pessoas aonde deveriam ir e o que deveriam ver foi gradualmente desmantelado. O centro de valores compartilhados se rendeu a uma igualdade entre materiais visuais. Isso foi bom e necessário, até determinado ponto. Milhões de imagens estão competindo por atenção. A proliferação libertou a cultura ocidental, mas também a deixou à deriva num oceano de estímulos superficiais, sem âncoras para mantê-la segura.
Logo, os turistas de hoje passeiam pelos museus, buscando saciar toda a sede de conhecimento de história da arte que possuem em um dia, se perguntando se é possível que a quantidade de material que viram – e não a qualidade da atenção dada às poucas coisas nas quais eles decidiram se concentrar – seja fator determinante para afirmar que eles “viram o Louvre inteiro”. É a corrida para tornar-se mais culto no menor tempo possível.
T. J. Clark, especialista em história da arte, que durante os anos 70 e 80 foi o pioneiro em um tipo de análise que rejeitou o conhecimento tradicional em benefício da arte no contexto das questões sociais e políticas, recentemente escreveu um livro sobre a ideia de dedicar muitos meses da vida dele para observar, intensamente, duas obras de Poussin. Analisar as obras lentamente, como se estivesse cozinhando um prato especial, pode vir a se tornar uma tendência radicalmente chique.
Até lá, lutamos com nossa impaciência cultural. Há pouco tempo, comprei alguns cadernos para desenhar com meu filho de 10 anos no St. Peter’s e nas redondezas de Roma, somente por diversão, não porque o façamos muito bem, mas porque isso nos ajudará a olhar com mais atenção para as coisas que encontrarmos. Já houve ocasiões em que multidões se reuniram para nos observar, como se estivéssemos fazendo algo totalmente estranho e original, e não algo normal, como isso costumava ser. Quase hesitei em mencionar nossos desenhos. Parece algo pretensioso, principalmente em um momento cultural no qual podemos facilmente nos sentir desconfortáveis e quase envergonhados por apenas prestar mais atenção do que os demais.
Felizmente, os artistas nos lembram que, de fato, não há uma única e correta forma de apreciar uma obra de arte, embora todas requeiram paciência e mente aberta. Quem já foi a um museu acompanhado de um bom artista sabe que eles não se preocupam muito com a veracidade do que dizem os livros de história da arte ou as placas penduradas nas paredes, visto que são consumidores egoístas, livres para buscar seus próprios interesses.
De volta às duas moças no Louvre: independentemente de serem aspirantes a artista ou pessoas curiosas, elas não ficaram plantadas para sempre em frente às esculturas, mas pararam tempo suficiente para rir, conversar e observar, sempre deixando a leitura das placas para depois.
Em outras palavras, elas observaram as obras. E pareciam estar se divertindo muito.
04/08/2009 15:21
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